CORRIDA: PRAZER E SATISFAÇÃO SEMPRE OU BOMBA RELÓGIO?

É senso comum que a corrida de rua e os esportes de endurance são amplamente benéficos para saúde, qualidade de vida e longevidade. No entanto não é incomum ouvirmos relatos de mortes durante provas ou mesmo após, sendo inevitável o questionamento: até que ponto realmente a prática da corrida de rua é benéfica e até que ponto pode levar a riscos de morte prematura.

Esse é um questionamento que todo corredor tem em algum momento da vida, e que muitas vezes pode nos afligir. Será que estou correndo muito, será que estou viciado? Bom vamos lá , em primeiro lugar é importante saber que o atleta muda muito , muito mesmo, em termos fisiológicos em relação a uma pessoa sedentária e em via de regra isso só traz benefícios na maioria da vezes. Uma das mudanças mais importantes e naturais é o aumento do tamanho do coração, como se trata basicamente de um músculo, toda vez que nos submetemos à um plano de treinamento estamos “estressando “ e “desafiando” os limites do nosso coração e como consequência ocorre uma hipertrofia das células cardíacas (miócitos) e aumento do tamanho das câmeras intracavitárias, isso se traduz em maior eficiência para bombear o sangue e maior facilidade de levar oxigênio através do sangue para o músculos que utilizamos para correr. Isso não necessariamente é algo maléfico pelo contrário ao elevarmos nossa capacidade de bombeamento além de melhoramos nossa capacidade aeróbica, diminuímos e muito o risco de doenças cardiovasculares além de diminuir os níveis pressóricos em repouso. Antigamente se tinha dúvidas se esse aumento cardíaco em atletas não poderia ser um sinal de insuficiência cardíaca e além disso naturalmente ocorre uma diminuição do ritmo cardíaco em repouso (bradicardia), o que era interpretado muitas vezes como um sinal de “arritmia”, no entanto sabemos hoje que a frequência cardíaca menor em atletas se deve justamente à melhoria da eficiência cardíaca, em outras palavras, o coração não precisa bater tão rápido em repouso justamente por que se tornou capaz de enviar mais sangue para os tecidos a cada contração.

O fato da corrida ter se tornado um esporte cada vez mais massificado em todo o mundo ajuda a entender o processo. Por exemplo no ano de 1975 nos Estados Unidos 16,233 pessoas finalizaram uma maratona, ao passo que em 2015 mais de meio milhão de pessoas finalizaram uma maratona. Como resultado a incidência de mortes nas provas de maratona aumentou, e acabaram se tornando mais frequentes do que antigamente, mas qual seria o denominador comum por trás de todas essas fatalidades? Excesso de treino? Má condicionamento físico? De fato o que foi descoberto através de inúmeros estudos ao longo dos anos é: a grande maioria das mortes súbitas em eventos de corrida de rua estavam associadas com anomalias estruturais congênitas não diagnosticadas previamente principalmente nos mais jovens , como por exemplo a cardiomiopatia hipertrófica (uma condição genética no qual ocorre aumento da espessura do músculo cardíaco), ou com doenças adquiridas como aterosclerose coronária principalmente na população acima de 40 anos. Ou seja, a prática competitiva por si só parece não elevar o risco de morte súbita, mas infelizmente quando associada com alguma alteração cardíaca não diagnosticada pode levar à um desfecho fatal.

Mas como podemos saber se realmente temos ou não a chance de possuir alguma doença cardíaca que pode predispor à uma fatalidade? Avaliação médica pré -participação é a chave para essa resposta. Como a maioria dessas condições cardíacas anormais são naturalmente silenciosas (assintomáticas), é de suma importância que todos aqueles corredores que irão iniciar a prática competitiva ou mesmo aqueles que já praticam à um bom tempo mas nunca se submeteram à uma consulta médica com esses fins, o façam pelo menos uma vez ao ano. Na avaliação pré participação, ocorre basicamente um “screening” ou um rastreio em busca de possíveis pistas que sugiram alguma alteração cardiológica, através de história clínica, antecedentes familiares e exame físico. Além dessa rotina existe alguns protocolos que sugerem a complementação com exames cardiológicos como eletrocardiograma e teste ergométrico visando afastar novamente possíveis condições cardíacas que predisponham aumento de morte súbita na atividade física. Um exemplo prático da eficácia desses exames: a maior causa de morte súbita em atletas abaixo de 35 anos é a Miocardiopatia Hipertrófica, anomalia cardíaca genética que pode ser facilmente suspeita em 90 % das vezes em alterações eletrocardiográficas. Uma vez diagnosticada a anomalia cardíaca, deve-se afastar o atleta de atividades competitivas com o intuito de diminuir o risco de evento fatais.

A lição que fica é que o exercício físico seja ele corrida de rua ou qualquer outro esporte de grande demanda fisiológica é para todos, no entanto se for competir ou treinar vigorosamente consulte um profissional apto para determinar seu real risco cardiovascular e as implicações que o exercício pode ter para saúde, sempre lembrando que o exercício é o melhor remédio para combater praticamente todas as doenças.

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